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Games

A história do Tetris: o quebra-cabeça soviético que conquistou o mundo

Poucos jogos atravessaram tantas fronteiras quanto o Tetris. Ele nasceu num laboratório soviético, escapou da União Soviética em fitas piratas, gerou uma guerra de processos entre gigantes da indústria e acabou virando o cartão de visitas de um console portátil que vendeu mais de 100 milhões de unidades. Tudo isso a partir de sete pecinhas coloridas caindo numa tela.

Tela clássica do Tetris

Nascido em um laboratório de Moscou

O Tetris foi criado em 1984 por Alexey Pajitnov, um engenheiro que trabalhava no Centro de Computação Dorodnitsyn, ligado à Academia de Ciências da União Soviética. Pajitnov programava em um computador Electronika 60 e gostava de quebra-cabeças. Inspirado num jogo de tabuleiro chamado pentaminós, ele decidiu usar peças formadas por quatro quadrados — os tetraminós. O nome juntou o prefixo grego "tetra" (quatro) com "tennis", esporte que ele apreciava.

A versão original não tinha gráficos coloridos nem som: as peças eram desenhadas com colchetes e símbolos de texto. Mesmo assim, os colegas de Pajitnov ficaram viciados, e cópias começaram a circular de máquina em máquina por Moscou. Em pouco tempo, o jogo já tinha vazado para fora do laboratório.

A fuga para o Ocidente

Como qualquer software soviético, o Tetris pertencia ao Estado. Cópias chegaram a Budapeste, na Hungria, e de lá foram parar nas mãos de empresas ocidentais que começaram a lançar versões para computadores domésticos sem qualquer acordo claro de direitos. O resultado foi um emaranhado jurídico: várias companhias diziam ter a licença, mas ninguém tinha negociado direito com a verdadeira dona, a agência estatal soviética ELORG.

No centro dessa confusão entrou Henk Rogers, um empresário holandês radicado no Japão, que viajou a Moscou para negociar diretamente com os soviéticos. Foi nesses encontros que Rogers e Pajitnov se conheceram — e construíram uma amizade que duraria décadas.

A guerra pelos direitos

A disputa pelos direitos do Tetris envolveu nomes pesados como Atari, a empresa Mirrorsoft e a própria Nintendo. O ponto mais valioso era o direito de lançar o jogo em consoles portáteis. Henk Rogers, representando os interesses da Nintendo, conseguiu fechar com a ELORG justamente essa licença, deixando a Atari de fora da versão de mão.

A decisão mudou a história dos games. A Nintendo estava prestes a lançar o Game Boy e precisava de um título que mostrasse a que veio. Em vez de apostar apenas no Mario, a empresa escolheu o Tetris para acompanhar o aparelho na América do Norte e na Europa.

O casamento com o Game Boy

Lançado em 1989 junto com o Game Boy fora do Japão, o Tetris caiu como uma luva no portátil. A jogabilidade simples e viciante funcionava perfeitamente em sessões rápidas, e o aparelho podia ser levado para qualquer lugar. A trilha mais famosa do jogo, conhecida como "Tipo A", é um arranjo da canção folclórica russa "Korobeiniki", que se tornou instantaneamente reconhecível para gerações de jogadores.

A combinação foi um sucesso estrondoso. O Tetris ajudou a vender milhões de Game Boys e provou que um bom jogo não depende de gráficos avançados, e sim de uma ideia bem executada.

A recompensa tardia de Pajitnov

Apesar de ter criado um dos jogos mais lucrativos de todos os tempos, Alexey Pajitnov passou anos sem receber um centavo de royalties, já que os direitos pertenciam ao Estado soviético. Só em 1996, depois do fim da União Soviética, ele e Henk Rogers fundaram a The Tetris Company, finalmente garantindo ao criador o controle e os ganhos sobre sua obra.

Pajitnov se mudou para os Estados Unidos e seguiu trabalhando com jogos. A amizade com Rogers, nascida em plena Guerra Fria, virou tema de filme e é um dos capítulos mais curiosos da indústria.

Um clássico que não envelhece

Mais de quatro décadas depois, o Tetris continua sendo relançado em praticamente todas as plataformas, de celulares a consoles modernos, e ainda movimenta competições disputadíssimas. O fenômeno é tão forte que ganhou nome próprio na psicologia: o "efeito Tetris", quando alguém joga tanto que passa a enxergar as peças caindo até de olhos fechados.

Está entre os jogos mais vendidos da história, com centenas de milhões de cópias somando todas as versões. Poucas criações provam tão bem que uma boa ideia, simples e universal, pode atravessar idiomas, sistemas políticos e gerações inteiras.

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