KISS: a banda que transformou show de rock em espetáculo
Nenhuma banda de rock levou o conceito de espetáculo tão a sério quanto o KISS. Antes deles, show de rock era música com luz de palco. Depois, virou pirotecnia, sangue falso, salto de plataforma e quatro personagens que praticamente nunca apareceram em público sem a maquiagem que os definiu.
Nova York, 1973
Paul Stanley e Gene Simmons vinham de uma banda anterior, a Wicked Lester, que não tinha dado em nada. Ao lado do baterista Peter Criss e do guitarrista Ace Frehley, os dois formaram o KISS, decididos a construir algo que ninguém mais estava fazendo: uma banda pensada como personagem, não só como grupo musical.
A ideia de pintar o rosto veio quase por acaso, inspirada em referências que iam do teatro Kabuki japonês aos quadrinhos que Stanley e Simmons liam quando crianças. Funcionou tão bem que, décadas depois, cada um dos quatro ainda seria reconhecido pela maquiagem antes mesmo do nome.
Quatro rostos, quatro personagens
Cada integrante criou uma persona própria, com maquiagem e figurino que não mudaram de conceito por quase 50 anos:
- Paul Stanley — o Starchild, a estrela sobre um olho;
- Gene Simmons — o Demon, a maquiagem de morcego e a língua que virou símbolo da banda;
- Ace Frehley — o Spaceman, com a estrela prateada ao redor dos olhos;
- Peter Criss — o Catman, com bigodes de gato desenhados no rosto.
A identidade visual era tão forte que, por anos, o contrato dos músicos proibia qualquer um deles de aparecer em público sem a pintura — ninguém deveria saber o rosto real por trás do personagem.
Alive! e o show que virou banda
Os primeiros três álbuns de estúdio venderam pouco. Foi ao vivo que o KISS encontrou seu público. "Alive!", de 1975, capturou a energia dos shows — explosões, cuspir de sangue e fogo, plataformas — e transformou "Rock and Roll All Nite" no hino que viraria sinônimo da banda. O disco salvou a carreira do grupo e provou que, para o KISS, palco e estúdio eram coisas diferentes.
De Detroit Rock City a Dynasty
"Destroyer" (1976) trouxe "Detroit Rock City" e a balada "Beth", que virou o maior hit de rádio da banda. "Love Gun" (1977) consolidou a fase de ouro. Já "Dynasty" (1979) mergulhou no som disco que dominava a época com "I Was Made for Lovin' You" — uma escolha que dividiu a base de fãs mais purista, mas que ainda hoje toca em pista de dança.
Por que tirar a maquiagem?
Nos anos 80, com Frehley e Criss fora da banda, o KISS fez algo impensável: tirou a pintura. A fase "sem maquiagem", que incluiu discos como "Lick It Up" e "Crazy Nights", tentava acompanhar um cenário de hard rock e hair metal que já não girava mais em torno de personagens pintados. Comercialmente, funcionou o suficiente para manter a banda relevante — mas nunca teve a mesma força simbólica da era clássica.
A volta, o adeus e os avatares
Em 1996, a formação original voltou a se pintar para uma turnê de reunião que lotou estádios e provou que o público nunca tinha deixado de querer justamente aquilo. O KISS seguiu ativo — com trocas de integrantes ao longo do caminho — até anunciar a "End of the Road", turnê de despedida que passou por quatro continentes entre 2019 e 2023.
O show final aconteceu no Madison Square Garden, em Nova York, no dia 2 de dezembro de 2023 — fechando o círculo a poucos quilômetros de onde tudo começou, em 1973. Antes de o pano cair, a banda revelou avatares digitais de si mesma, criados em parceria com a produtora sueca Pophouse, sinalizando que os personagens do KISS pretendem sobreviver aos próprios músicos que os fundaram.
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