Top Gear: a franquia de corrida que marcou os anos 90 e por que ela nunca mais voltou
Pergunte a qualquer brasileiro que cresceu nos anos 90 qual foi o primeiro jogo de corrida que ele jogou no Super Nintendo. A resposta sai rápida, quase sempre acompanhada de um assovio: a trilha do Top Gear. Tela dividida, o amigo do lado, e aquela música que grudava na cabeça por dias.
A franquia some dos lançamentos há mais de duas décadas. E a história de por que isso aconteceu envolve uma briga judicial com a BBC, um estúdio que desistiu do gênero e um nome que foi perdendo a alma pelo caminho.
Sheffield, 1992: a largada
O primeiro Top Gear nasceu na Inglaterra, dentro da Gremlin Graphics, em Sheffield, e chegou ao mundo pelas mãos da japonesa Kemco em 1992. Foi um dos primeiros jogos de corrida do Super Nintendo — e, talvez por isso mesmo, definiu o que muita gente esperava do gênero no console.
A câmera ficava atrás do carro, o cenário corria num pseudo-3D charmoso, e você disputava posição contra um pelotão lotado em pistas espalhadas pelo planeta. Tinha pit stop, tinha nitro para guardar no momento certo e, o mais importante, tinha tela dividida para dois jogadores rodando de forma surpreendentemente fluida para a época.
No Japão, aliás, o jogo nunca se chamou Top Gear: por lá o nome sempre foi Top Racer. Guarde esse detalhe, porque ele volta a importar lá no fim da história.
Era barulhento, rápido e impossível de largar.
A trilogia que ficou na memória
O coração da franquia são três jogos de Super Nintendo, lançados em sequência, cada um puxando a régua um pouco mais para o lado divertido — e nunca para o lado realista.
| Jogo | Ano | Marca registrada |
|---|---|---|
| Top Gear | 1992 | tela dividida, nitro e a trilha lendária |
| Top Gear 2 | 1993 | upgrades de carro, clima, dano e volta ao mundo |
| Top Gear 3000 | 1995 | corrida futurista com carros que flutuavam |
O Top Gear 2 foi o salto de ambição. Ele trouxe um sistema de melhorias para o carro entre as corridas, condições climáticas, dano por batida e um circuito que passava por dezenas de países. Ganhou versões para Amiga, Amiga CD32 e até Mega Drive — coisa rara para um jogo tão associado ao SNES.
Já o Top Gear 3000 fechou a trilogia jogando tudo para o futuro: 48 pistas espalhadas por 12 sistemas solares, paisagens alienígenas e veículos que pairavam sobre o asfalto, tudo sustentado pelo famoso Mode 7 do Super Nintendo. Era ousado, estranho e lindo do seu jeito.
Uma semana para compor uma lenda
Nenhuma conversa sobre Top Gear sobrevive sem falar da música. A trilha sonora do primeiro jogo é uma das mais lembradas de todo o catálogo do Super Nintendo, e a história por trás dela é quase absurda.
O responsável foi o escocês Barry Leitch, que teve cerca de uma semana para entregar toda a trilha — e ainda precisou escrevê-la em linguagem assembly, sem os luxos de hoje. Foram apenas sete faixas, uma delas um simples jingle, mas tão longas e marcantes que viraram identidade da série.
Algumas curiosidades que explicam o carinho:
- As faixas levavam nomes de cidades reais, como Las Vegas, Hiroshima, Bordeaux e Frankfurt.
- O som usava arpejos subindo e descendo acordes, um efeito típico da era 8/16-bit.
- A trilha foi tão celebrada que ganhou apresentação orquestral com o Video Games Live aqui no Brasil.
Pouca gente lembra do nome dos carros. Quase todo mundo lembra da música.
Quando o nome saiu do Mode 7
Depois de 1995, a Gremlin saiu de cena e o nome Top Gear virou uma espécie de etiqueta, colada em jogos feitos por estúdios diferentes, com propostas diferentes. A cronologia conta a queda:
- Top Gear Rally (1997, Nintendo 64) — feito pela Boss Game Studios, apostou no rali realista com carros licenciados.
- Top Gear Overdrive (1998, Nintendo 64) — elogiado pelo capricho gráfico.
- Top Gear Pocket (1999, Game Boy Color) — a série indo para o portátil.
- Top Gear Hyper Bike (2000, Nintendo 64) — o único da franquia com motos.
- Top Gear Rally 2 (2000, Nintendo 64) — pouca novidade além de um sistema de clima.
- Top Gear Dare Devil (2000, PlayStation 2) — estreia na nova geração, com pistas em Roma, Londres, Tóquio e San Francisco.
- Top Gear: RPM Tuning (2004, PC/PS2/Xbox) — oficialmente o último jogo da franquia.
Repare no problema: cada um era um carro diferente, de um dono diferente. O arcade frenético e a trilha inconfundível da trilogia do SNES não atravessaram a ponte para o 3D.
O nome era o mesmo. A alma, não.
Afinal, por que a franquia parou?
Não foi um único motivo. Foram três se acumulando.
A briga com a BBC
Em novembro de 1993, a Kemco America tentou registrar a marca "Top Gear" para jogos de vídeo. A BBC se opôs — afinal, ela exibia um programa de TV com esse exato nome desde 1977. O processo se arrastou e, em 1999, a decisão saiu a favor da emissora. Usar o nome "Top Gear" em games virou terreno juridicamente minado.
A Kemco mudou de ramo
Com o tempo, a Kemco redirecionou o foco para os RPGs de estilo japonês, gênero em que atua até hoje. Tocar uma franquia de corrida cheia de complicações de marca deixou de fazer sentido para a empresa.
A marca foi perdendo identidade
Os últimos jogos venderam pouco e receberam avaliações mornas. Sem um estúdio fixo cuidando da série e sem aquela fórmula original, "Top Gear" deixou de significar algo claro para o público. Os direitos acabaram sendo vendidos para a Piko Interactive.
O espírito que se recusou a morrer
A boa notícia: a essência da trilogia clássica nunca evaporou de vez — ela só trocou de nome.
O herdeiro mais óbvio é brasileiro. Horizon Chase, criado pelo estúdio gaúcho Aquiris, é abertamente um tributo àqueles jogos: a mesma corrida em alta velocidade, o pelotão lotado, o visual colorido. E não por acaso, quem voltou a compor a trilha foi o próprio Barry Leitch.
Em 2024, a história deu mais uma volta. A QUByte Interactive lançou a Top Racer Collection, reunindo os três jogos originais de Super Nintendo e ainda um inédito, o Top Racer Crossroads. Note o nome escolhido: não é "Top Gear", é "Top Racer" — exatamente o nome japonês original, livre da confusão com a marca da BBC.
A franquia, no papel, está parada. Mas pergunte de novo àquele brasileiro dos anos 90: a música ainda toca na cabeça dele.
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