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Mangás e HQs

Hunter x Hunter: a obra-prima que Yoshihiro Togashi escreve no próprio ritmo

Existe um tipo raro de obra que se torna grande tanto pelo que entrega quanto pelo que faz esperar. Hunter x Hunter é o exemplo definitivo. Yoshihiro Togashi construiu um dos mangás mais ambiciosos do shonen e, de quebra, ensinou toda uma geração de leitores a conviver com a palavra 'hiato'.

Gon e Killua, de Hunter x Hunter
Gon e Killua, a dupla central de Hunter x Hunter.

O homem por trás da caçada

Antes de Gon e Killua, Togashi já era um nome de peso. Foi dele Yu Yu Hakusho, sucesso estrondoso dos anos 1990 que o esgotou física e criativamente. Quando voltou à Weekly Shonen Jump em 1998 com Hunter x Hunter, ele trouxe outra postura: queria liberdade para escrever do seu jeito, sem o ritmo industrial de capítulos semanais.

A premissa parece simples. Gon Freecss descobre que o pai, dado como morto, é um lendário Hunter — uma elite de aventureiros, caçadores de tesouros e criaturas. Para encontrá-lo, Gon precisa se tornar um deles.

O que começa como uma jornada típica de garoto determinado vai, aos poucos, ficando muito mais complexo e sombrio.

Quando o shonen decide pensar grande

Hunter x Hunter usa as convenções do gênero para depois subvertê-las. O sistema de poderes, o Nen, é um dos mais bem estruturados dos mangás de luta: tem regras claras, categorias e custos, o que transforma cada combate numa partida de xadrez mental, e não só numa troca de socos.

Os personagens em volta de Gon roubam a cena com frequência:

  • Killua, o ex-assassino de família, talvez o melhor amigo já escrito num shonen
  • Kurapika, movido por uma vingança que cobra um preço alto
  • Hisoka, o palhaço sedento por adversários fortes, perturbador e magnético

É um elenco que não cabe na caixinha de mocinhos e vilões.

Personagens de Hunter x Hunter
O elenco de Hunter x Hunter foge da divisão simples entre mocinhos e vilões.

O arco que muita gente chama de obra-prima

Se há um momento em que Hunter x Hunter sobe a um patamar próprio, é a Saga das Quimeras (Chimera Ant). Longa, densa e brutal, ela abandona qualquer fórmula de aventura juvenil para discutir humanidade, identidade e o peso de tirar uma vida.

O vilão Meruem, o rei das formigas-quimera, é uma das figuras mais complexas que o shonen já produziu. Sua transformação ao longo do arco é lenta, cruel e estranhamente comovente.

É o tipo de história que faz o leitor parar e respirar fundo antes de virar a página.

E os hiatos?

Não dá para falar de Hunter x Hunter sem encarar o assunto. Togashi sofre de dores crônicas nas costas, e o mangá entra em pausa por longos períodos — às vezes anos seguidos. Capítulos chegam a sair com rascunhos visíveis, traços a lápis, quase como bastidores de uma obra em construção.

Para alguns, é frustrante.

Para muitos fãs, virou parte da relação: cada volta dele é tratada como acontecimento, e a notícia de novos capítulos circula como festa pela internet. O mangá é grande o bastante para sobreviver às próprias pausas.

Por que continua valendo a leitura

Mesmo inacabado, mesmo intermitente, Hunter x Hunter é leitura obrigatória para quem leva o gênero a sério. As adaptações em anime — a de 1999 e, principalmente, a do estúdio Madhouse em 2011 — cobrem boa parte da história e são ótimas portas de entrada.

Mas é no mangá que a ambição de Togashi aparece inteira: nos esquemas de estratégia desenhados à mão, nas reviravoltas que ninguém vê chegar, na recusa teimosa de entregar o óbvio.

É uma obra escrita no ritmo de um único autor que se recusa a fazer menos do que imagina. E talvez seja exatamente por isso que ela demora — e por isso que vale a pena.

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