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Mangás e HQs

Monster: o mangá em que Naoki Urasawa fez um médico caçar o paciente que salvou

Não tem transformação, não tem torneio, não tem poder oculto. Monster é um mangá sobre um médico correto que faz a coisa certa uma vez e passa 162 capítulos pagando por isso. Publicado entre 1994 e 2001, continua sendo o argumento mais forte de que mangá adulto não precisa de nada explodindo para prender alguém por 18 volumes.

Dr. Kenzo Tenma, protagonista de Monster
Kenzo Tenma, o neurocirurgião cuja decisão de plantão dá origem a toda a trama.

A escolha que estraga uma vida

Kenzo Tenma é neurocirurgião japonês no Hospital Memorial Eisler, em Düsseldorf. Carreira em ascensão, noiva filha do diretor, futuro encaminhado.

Numa noite, chegam dois pacientes quase ao mesmo tempo: um menino com um tiro na cabeça e o prefeito da cidade. A direção manda operar o prefeito. Tenma opera o menino.

O prefeito morre. O menino sobrevive.

Anos depois, Tenma descobre que o garoto que ele salvou virou um assassino metódico — e que boa parte dos cadáveres que aparecem pela Alemanha tem a ver com aquela decisão de plantão. A partir daí, o mangá é uma perseguição: um homem que jurou salvar vidas atravessando a Europa atrás de alguém que ele mesmo devolveu ao mundo.

Sete anos em Big Comic Original

Monster saiu na Big Comic Original, da Shogakukan, de dezembro de 1994 a dezembro de 2001. Números da obra:

  • 162 capítulos, reunidos em 18 volumes
  • Mais de 20 milhões de cópias em circulação
  • Prêmio Cultural Osamu Tezuka de 1999
  • Prêmio Shogakukan de Mangá, categoria geral

Urasawa já era conhecido por Yawara! e Master Keaton, mas foi aqui que ele fixou o formato que repetiria em 20th Century Boys e Pluto: elenco enorme, capítulos que parecem episódios independentes e uma trama que só fecha o desenho lá no fim.

Um thriller europeu desenhado em Tóquio

A escolha de cenário é metade da obra. Urasawa não ambientou nada disso no Japão. Monster abre em Düsseldorf, na Alemanha Ocidental de 1986, e retoma a história quase dez anos depois, com o país já reunificado — Munique, Frankfurt, e desvios até Praga.

É um país com dois passados grudados um no outro, e o mangá usa isso o tempo todo: instituições da antiga Alemanha Oriental que sumiram do papel mas deixaram gente viva, arquivos incompletos, testemunhas que preferiam não ser encontradas.

O centro dessa camada é o Kinderheim 511, um orfanato do lado oriental que funcionava como laboratório: crianças submetidas a um programa para produzir adultos sem vínculo afetivo nenhum. Não é fantasia sobrenatural. É burocracia aplicada a seres humanos, que é bem pior.

O traço acompanha. Urasawa desenha rosto de gente comum — enfermeiras, delegados, bêbados de bar, advogados cansados — com um nível de expressão que dispensa balão de pensamento.

Por que Johan é um vilão diferente?

Johan Liebert não tem poder, exército, arma exótica nem plano de dominação mundial. Ele tem duas coisas: paciência e a capacidade de convencer qualquer pessoa a fazer o que ele quer.

O que o torna incômodo:

  1. Ele quase não age. Boa parte dos crimes é cometida por outras pessoas, convencidas por ele em uma conversa.
  2. Ele é simpático. Educado, calmo, atencioso — e é exatamente por isso que funciona.
  3. Ele tem irmã. Nina carrega a mesma origem, o mesmo experimento, a mesma infância, e escolheu outra coisa. A existência dela desmonta qualquer explicação fácil sobre o irmão.
  4. A motivação é vazia por dentro. Quando ela finalmente aparece, não vira justificativa nem redenção.

O mangá passa 18 volumes fazendo uma pergunta prática, não filosófica: uma vida vale mais que outra? Tenma responde "não" na primeira noite e gasta a obra inteira descobrindo o preço dessa resposta.

Johan Liebert, o antagonista de Monster
Johan Liebert: nenhum poder, nenhum exército — só a capacidade de convencer.

O anime de 74 episódios e as adaptações que nunca saíram

O Madhouse adaptou o mangá entre 2004 e 2005, sob direção de Masayuki Kojima, em 74 episódios exibidos pela Nippon TV. É uma das adaptações mais fiéis que o meio já produziu: praticamente capítulo por capítulo, sem enchimento, sem final alternativo. Quem lê e quem assiste chega ao mesmo lugar.

Hollywood tentou duas vezes e falhou nas duas.

A New Line Cinema comprou os direitos em 2005 para um filme que nunca saiu do papel. Em 2013, Guillermo del Toro anunciou que desenvolveria uma série para a HBO — e chegou a falar publicamente do projeto antes de ele naufragar. Monster segue sem versão em live-action, o que talvez seja sorte: a obra depende de silêncio, tempo e rosto, três coisas que costumam ser as primeiras a ser cortadas numa adaptação.

Por onde começar

Os primeiros volumes são enganosamente lentos. O mangá gasta tempo apresentando um hospital, uma hierarquia e um médico chato de tão correto — e é justamente esse investimento que faz o resto doer.

Se você aguentar até o fim do volume 2, não larga mais.

Entre ler ou assistir: o anime é fiel o bastante para valer sozinho, e a leitura ganha no ritmo, porque os cliffhangers de Urasawa foram desenhados para virada de página. Qualquer um dos dois caminhos entrega a mesma coisa — um thriller sobre gente, no qual a única força sobrenatural presente é a capacidade humana de convencer outra pessoa a fazer algo terrível.

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